segunda-feira, 27 de março de 2017

De onde é que apareceste?
Uma capa sem imagem, um título que me sussurraria ao ouvido para o ler, com jeito conquistador, como quem te olha (assim como nos filmes) e nem te dirige a palavra (gosto de lhes chamar "amores de metro"); e eu, inculta, mergulharia na primeira página a desejar saber ler rapidamente para te descobrir no final, e, ao mesmo tempo, ser possuidora da sabedoria para absorver cada frase, desvendar cada palavra, deixar cada página em branco como se te despisse sem que fosse necessário tocar no tecido da tua roupa.
Se pudesse, comprava-te (!) nada de alugar ou requisitar numa biblioteca vulgar por meramente quinze dias e muito menos fotocopiar cada página para perder a essência do teu cheiro, nada de traficar o conhecimento que apenas tu possuis. Não importaria o preço, nem que os meus bolsos ficassem a dever meia dúzia de tostões a alguma alma caridosa que me faria algum empréstimo... para te poder folhear, sentir que eras meu, valeria a pena.
Não te esqueceria no meio dos outros e do pó que cobre o monte de capas duras já lidas na minha mesa de cabeceira... todas elas uma história... nenhuma delas tu.
Ainda penso que tipo de livro serias... talvez, um cheio de poemas sobre os desgostos e desamores da tua vida e eu, ingénua, tentaria cuidar cada ferida que tu tentaste, em vão, curar desleixadamente... talvez fosses uma narrativa de mistérios e eu adormeceria a tentar desvenda-los a todos... ou, talvez fossemos parte do mesmo livro, uma epopeia de amores escondida numa livraria antiga, talvez uma garota adolescente, provavelmente, no esteja a ler neste momento e nós ainda não saímos da primeira página.
Ou talvez, sejamos um conto de um escritor nos seus quarenta e poucos a imaginar a história com a rapariga que se cruzou no metro, há uns bons anos esquecidos, que teimou em desaparecer no meio da multidão não deixando sequer a remota hipótese de ele a amar e dela se deixar ser, nem que fosse só, uma noite bem passada.

domingo, 19 de março de 2017

Saudades são simples retratos da tua ausência, mas a tua presença já não me satisfaz tanto como um leve copo de pé, fino e sem jeito de pobreza, meio vazio do whisky mais rasca que a minha carteira conseguiu suportar.
Hoje não vi o mar mas senti-lhe o cheiro na roupa lavada que vesti sobre a pele semi molhada após o duche matinal (como quem acorda ao meio dia), a mesma que usei na nossa aventura à beira da praia, entre o fogo de artifício e a música que abafava qualquer motivo que nos impedisse de recuar naquele único momento.
Entretanto tem sido a mesma conversa, é a música, as luzes, os jogos e as pressas que nos impulsionam um contra o outro; e tu nem me tocas mesmo quando estás colado a mim.
Sofro de um vasto desgosto, leve, de quando a quando, te quero, cruamente, o corpo e, ignoro, friamente, a alma, como se fosses uma bola decorativa, oca e vazia mas deslumbrante para a vista. Sei que não o és, mas eu não quero saber assim tanto.
"Amor é fogo que arde sem se ver", dizem eles (ignorantes)... mas eu ardo... e a chama é bem notória e nunca, contigo ou com outros, significou amor. Não esperes que no final do coito te sussurre ao ouvido palavras que não sinto, não esperes tocar-me e sair ileso sem qualquer queimadura, física ou emocional.

sábado, 18 de março de 2017

Eu pensei em pegar numa das tuas gravatas, prendê-la ao meu candelabro e metê-la ao pescoço num nó meticulosamente cuidado, mas não me fez sentido querer morrer no teu perfume. Seria como morrer nos teus braços e eu já há muito que sou um mero cadáver enterrada neles.
Tive a ideia de me atirar para o meio da estrada para que um carro me levasse no seu para-choques... não quis ser um fardo na consciência de um pobre coitado sem culpa, nem traumatizar uma criança no banco de trás por ter que ver os pais a limpar o meu sangue do vidro para continuar o caminho, só porque decidi ser louca aos olhos de cada psiquiatra que me tentou ajudar ao roubar-me a carteira.
Ainda ponderei em saltar de um penhasco mas tive medo de me absorver em arrependimentos durante a queda, ou, talvez, durante o banho, com uma pequena lâmina de uma gilete gasta, acertar numa veia e deixar-me levar à medida que o sangue jorraria dos meus pulsos, mas é uma freira que limpa a casa sem aviso prévio, fá-lo apenas porque tem pena de mim e eu deixo-a, e, envolvê-la nos meus pecados seria meramente egoísta... e ela rezaria por mim e pela minha paz enquanto chorava pelo meu corpo deteriorado e eu vaguearia pelos infernos.
Apesar de querer fazer isto por mim não quero perturbar ninguém, quero fazê-lo na minha solidão, sem que ninguém me note, como aquele mendigo que dorme na esquina que cruzo a caminho do trabalho.
Por fim, lembrei-me de falecer durante o sono, com uma dose bem aviada de calmantes que aqueles tantos "senhores doutores" me receitaram para a demência... talvez tivesse um sonho feliz, talvez me livrasse de todos os pesadelos antes de me tornar um. Mas, e se eles me curam? Se me levam esta tristeza e me tornam em mais uma dona de casa aparentemente feliz, casada contigo, a passar a gravata que há pouco quis que me roubasse o ar e com ele a vida?...
Nasci enfraquecida, já a chorar, sem a mínima vontade de viver, e agora, nos meus vinte e poucos só queria uma pequena solução de largar este corpo que me pesa e me prende.

domingo, 12 de março de 2017

Eu vi como me olhaste, a maneira como me tocavas, o desejo com que me quiseste. Eu senti, cedi cada partícula, deixei-me conquistar. Não vi amor, também não o procurei, nem tive qualquer intenção de o encontrar no teu aspecto delirante estendido na minha cama. Mas gostei da maneira como não me negaste nada, como dormiste agarrado a mim como se dormisse-mos juntos todas as noites como um jovem casal apaixonado quase a dar o nó.
Agora, vou deixando cada pedaço do meu coração, já há muito pedra, gelo (AQUECE-ME, como um grito de socorro), em cada lençol que reveste um corpo, em cada gemido de um nome diferente. Vou-me perdendo em cada peça de roupa rasgada por umas mãos que só anseiam correr o meu físico e não o mundo na companhia do mesmo.
Mas, ainda sinto os teus dedos embriagados a escorregarem pela minha seda nua como se fosse um destino inocente que nos seguisse até à cama. Acabo por te sentir em cada toque alheio, ainda te anseio mas não te quero nem espero que abras a porta para me guardares numa vida a meias, que me reclames como tua e só tua como eu me apodero dos sapatos da minha mãe sem que ela suspeite.
Dizem que a primeira vez que despimos alguém é o momento em que se fica mais perplexo por descobrir as curvas debaixo dos trajes... o teu surpreende-me sempre que raspo as unhas levemente na tua carne, como se tivesses escrito poesia complexa em cada centímetro, mil e um significados da palavra etimológica pecado.
Estiveste no meu quarto uma noite destas, apenas para trocar umas quantas palavras banais, as minhas paredes guardaram o teu cheiro, mesmo depois de terem sido invadidas pelo suor de outros, pelo fumo de alguns cigarros sem serem os meus.
Nem peço que me ofereças a tua companhia nocturna, apesar de nunca a negar... dá-me apenas paz, abandona-me a alma.
Contudo, despede-te do meu físico, marca-me com a tua colónia uma última vez, vem-te e depois vai-te... como um final feliz duma história de amor que nunca existiu.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Gosto de sentir como ela fica no papel, marcada, suave, toda minha como não o é; escrevê-la tal como a imagino sem a conhecer, despida de inibições na presença. Ela não tem que ser perfeita, pelo contrário, a minha tinta no branco não a torna pudica. Rabisco-a cheia de defeitos e pontos fracos para que possa explorar, sem medos, que ela, toda santa, toda demónio, me veja nu.
Gosto de sentir como fazemos amor em cada página sem nos termos cruzado na rua, sem nos termos tocado uma única vez; relembrar todas as memórias que não vivemos, as em que pousa a sua mão suavemente na minha face e me acaricia a barba por aparar nas manhãs em que chove de uma maneira torrencial e o trabalho fica para depois.
E os nossos filhos (?) que crescem em cada frase, que nome lhe daria? Pensei em ter uma garota para que fosse moldada à imagem da mãe, vivermos numa casa com vista para o mar, ensiná-la a surfar (logo eu, que nunca toquei numa prancha e sempre achei que a areia me fazia comichão nos pés). Mas gosto do sol e do pensamento em como ela ficaria divinal ao ser iluminada por cada raio de sol com cheiro a maresia.
A única característica que não lhe consigo dar é a profissão... por mim ficaria em casa a ser a minha arte, a musa dos meus rascunhos, contudo, quero que seja feliz e que se sinta realizada. Só peço para arranjar tempo para mim, que não chegue a casa exausta para me amar de volta, com demasiadas dores de cabeça para criar a nossa filha.
Ah! E, que não me troque por outro homem mais bem sucedido, com melhor aparência e uma carteira mais composta, sem a mania de rabiscar qualquer pedaço de papel.
Olhem bem para mim, ela nem existe e eu já morro de medo de a perder.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Ouve-se o telemóvel a tocar uma espécie de música de elevador já faz um quarto de hora, ela mantém-se imóvel, agachada no canto da sala com a cabeça entre as pernas sem dizer uma única palavra, sem fazer um único som. Há uma infinidade de motivos para tal cenário ser possível.
Poderia ter sido rejeitada pelo namorado novo que conheceu há uma semana e que lhe pagou o jantar para a levar para a cama, talvez nunca lhe tenha dado notícias e que só agora é que se lembrou de ir dormir com a vizinha do lado na altura em que ela chegou a casa e os apanhou à porta com a mão dele debaixo da saia sem se sequer se importar que a pobre rapariga era dona da porta a seguir à mesma.
Poderia ter ido sair com as amigas e ter abusados nos shots de tequila, poderia ter dançado a noite inteira sem pensar nos problemas e na possível ressaca que teria na manhã seguinte... pelo menos teria voltado aos tempos em que as dores de cabeça não eram provocados por pessoas ou trabalho mas sim por copos a mais e horas de sono a menos.
Poderia ter atingido um estado de loucura extrema, sem reação. Poderia estar ali apenas à espera de morrer ou de que aparecessem para a levarem para um hospício porque a vida já não era tão colorida como os campos de flores em que ela brincava na casa de campo que os pais alugavam quando iam de féria.
Poderia ter cometido um crime, matado alguém roubado uma loja, atropelado uma pobre idosa. Mas ela apenas está ali, contida em si. É tudo o que sabemos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Tu não me podes abandonar e ficar e eu não consigo estar em dois sítios ao mesmo tempo, a fingir que não sinto ou que sou outra pessoa. Sempre comi muito ou quase que me matava à fome, dormia dias a fios ou passava as noites acordada só porque podia. Contigo não é mais diferente que outras situações, sempre te amei até à exaustão ou então odiava-te ao ponto de nem conseguir dizer o teu nome. Nunca soube ser cinzento, o meu mundo era todo a preto e branco. Ou dava-te alma ou dava-te corpo. Ou passava noites a pensar em ti ou a tentar esquecer-te. Ou brindávamos com champanhe ou passava noites a tinto e cerveja. Os gritos da nossa casa tinham dois significados e eu só gostava de um deles. Tinha frio nas noites em que dormias de costas voltadas para não me veres o rosto. Acordava com o teu beijo ou com a tua ausência. Dava-te sempre alguma coisa, davas-me nada.
E, quando te bati com a porta na cara, tu entraste, deste-me tudo novamente, fizeste-me ceder. Só me quiseste quando eu te recusava e as palavras que me dizias eram traços de cocaína que me alucinavam ao som de todas as tuas cantigas de bom mentiroso.
Foi isto que me levou à beira da loucura, não soubemos ser amigos, não quisemos ser mais.
Podia abandonar todos os meus vícios mas se não abro mão de ti nunca mais me recupero.


Ela vigia-me enquanto durmo e ninguém acredita em mim quando digo que aquela cara de anjo quando se despe emana pecado.
Peço ajuda de joelhos pregados ao chão, sinto-me sufocado... acabei de entender que tenho a corda ao pescoço e quem a coordena é o diabo.
Não se riam da minha cara, que estou desesperado, apaixonei-me por um fardo de salto alto que me deixa vidrado, especado... cego, surdo e mudo... estarei louco?... começo a ficar preocupado.
Matem-me já! Torturem-me se for necessário por esse ser o meu fado mas peço a Deus que não me deixe neste estado, sinto-me amaldiçoado cada noite que passo ao seu lado.
E quem me inveja é apenas um pobre desgraçado, preferia mendigar nas ruas do Chiado que viver no mesmo telhado como se estivesse casado, castrado e um pouco nauseado da vida que tenho levado.
Estou cercado, não há muito mais a dizer, só que sou eu o culpado, talvez fique nesta sala eternamente fechado.
Apaixonei-me por um demónio no corpo de mulher, o meu destino foi selado

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